terça-feira, 17 de novembro de 2015

Deliberações 2

                     

   Esta é mais uma edição do bloco de deliberações. Nela, vou discutir uma ideia que foi exposta por um filósofo do século XIX. Ela, no entanto, é menos uma ideia filosófica que antes uma observação crítica. Mesmo sendo de um século passado, a ideia desse pensador faz-se por bem atual. Trata-se de uma análise de Bauer (1809-1882). Antes de expô-la, assim como o texto base, vou discorrer algumas reflexões.
   Uma das primeiras coisas que eu apreendi das minhas primeiras aulas de química do ensino médio foi observar a inversão de valores da contemporaneidade. Isso, ao passo que nosso mundo atual é absorto em tecnologias que só são obtidas porque houve um processo que passou pela fundamentação teórica do projeto até o efetivo produto final. O valor passa a ser o resultado e não o processo.
   Trata-se da consequência de uma geração que, de modo geral, pôde ver coisas e tecnologias que não saberia compreender em sua totalidade de primeiro, mas que, mesmo assim, teve elas como prontas. Essa geração toma essas coisas por certo (tradução minha de uma ideia do inglês expressa por "take for granted"). 
   Trouxe essa reflexão para fazer um paralelo com a realidade atual, assim como Bauer observou em sua época. Essa continuidade histórica entre o atual e o século XIX é muito interessante, pois Bauer fundamentava-se em Hegel para afirmar que a conclusão natural de um desenvolvimento histórico (que, segundo ele, tende a concentrar-se no indivíduo) é uma passagem para uma nova espécie de ordem.
   A reflexão inicia-se da seguinte forma (baseada no que já foi dito): os conhecimentos que temos atualmente tanto científicos como filosóficos (que dizer da epistemologia) são resultado de um processo de pensamentos e análises de outras pessoas e, muitas vezes, de um conjunto de pessoas que, juntas (mesmo que não intencionalmente e diretamente) construíram o processo para tais conhecimentos.
   O que acontece é que há uma desvalorização desse processo. Não no sentido de ele não ser reconhecido, pois é, mas de ele não ser mais tão continuado, quanto antes reproduzido. Como creio na ciclicidade do processo final histórico de Hegel (não de forma restrita nem específica), espero que essa realidade seja renovada.
    É com base nessa ideia que posto um trecho do livro "De Hegel a Nietzsche" (novamente), que fala sobre tal crítica de Bauer:

   "As universidades [...] perderam seu atrativo, seus professores de filosofia são apenas repetidores de sistemas antiquados; elas não produzem mais um único pensamento novo, que podia movimentar o "pauperismo" espiritual e econômico, dissolveu o interesse pelos estudos metafísicos. Com razão o número de ouvintes das universidades decresce anualmente, enquanto as escolas técnicas têm mais afluência. Também as academias atestam a decadência dos estudos gerais, desde que elas são ocupadas por aqueles que se preocupam de modo mais trivial com suas profissões, os assalariados diaristas (Routiniers)."


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